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Felicidade Disponível



 Pisamos no acelerador para matar o tempo – atenta Kodo Sawaki Roshi. Corremos contra as horas. Hiperconectados, temos o mundo todo ao nosso alcance e não estamos ligados a nada. Sem olhos para ver, não percebemos a conexão que dá suporte à nossa existência. O homem esqueceu-se da sua dimensão mais importante – a espiritual. Aturdido, vaga no mundo esforçadamente em busca de algo que já está disponível em si e encontra o oposto. Depara-se com o medo, com a ansiedade, com a angústia, e sofre. Quer as coisas pra si e não as tem; quer ser alguém que não pode ser. Não consegue realizar suas intenções no pouco tempo acelerado que possui. Empilha conquistas e realizações, faz fortuna, tem muito prazer, mas no fundo sente um profundo vazio. Por quê?
Complicamos o que é simples. Levamos tudo muito a sério. Criamos problemas para ocupar nossas mentes. Somos artificiais e superficiais. Como diz Dosho Saikawa Roshi, só os homens não são somente homens. “Os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes” – elucida o mestre zen. Não nos aceitamos como humanos e esquecemos que somos falíveis, precários e transitórios. E, principalmente, não enxergamos que essa é a dinâmica da vida, que tudo isso é maravilhoso, intrínseco ao universo. Ao contrário: não queremos mudanças, queremos ter o controle de tudo. Medo, ansiedade, gula, ambição e uma desesperada fome de prazer. Tudo deforma a imagem da realidade que se reflete em nossa mente, aponta Thomas Merton.
“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”, disse Fernando Pessoa. Podemos imaginá-lo nesse ato contemplativo, com felicidade plena, ao encontrar o singelo sentido da vida. O poeta não apenas ouviu com seus ouvidos, mas com os ouvidos dos ouvidos. Ele – assim como revela Saint Exupèry, em O Pequeno Príncipe - capta o essencial que é invisível aos olhos. “Só se vê bem com o coração”, ensina a personagem infante. Podemos imaginar Pessoa tendo ouvidos por todos os órgãos, tendo olhos à flor da pele. A brisa fresca abraçando-o e invadindo seu interior, num momento de contentamento que deixa explodir em si uma alegria sublime. A alegria de apreciar a vida. Alegria que emana o amor por todas as coisas. Amor que é natural ao homem. Homem que é, antes de qualquer coisa, um ser espiritual inclinado à compaixão, em busca de consciência e a favor da paz – pronto para ser feliz.
Inventar coisas para se contentar é construir infelicidade. Precisamos apreciar a vida. Em A Complicada Arte de Ver, Rubem Alves descreve uma experiência de Alberto Caeiro que podemos usar para ilustrar o que muitos mestres espirituais orientam. “Disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas’”. A felicidade aí está, basta ter olhos para ver.

4 comentários:

daysern@gmail.com disse...

Gostei muito deste texto e do seu blog, parabéns! Também estou neste processo de aprender a contemplar a vida, e é sempre bom ler textos assim para não nos esquecermos deste caminho. _/\_

Anônimo disse...

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